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A alma na pedra

A alma na pedra - K

 

teus pés e tocarem tuas asas. Eu te amo, Brasil, porque ser Brasileira permite que os anbsoc5 dancem dentro, que as palavras me envolvam, abracem e embriaguem a alma.

Mudei tanto... Nas palavras, nos pensamentos, no sentir. Tem uma luz aqui dentro que acende e apaga, e muda de cor a cada intervalo de escuro. Um medo lento, de constante aumento, me adverte que não devo me distanciar do senso. Escrevo. Mas eu não sei escrever um livro. Escrevo o que diz o meu coração, espécie de ‘Diário’.

Não sei o que mudou aqui dentro, só sei que é dentro, espécie de eco que espalha e confunde com o vento, quase grito, e repete: Eu existo e permanecerei. Por mil anos, a partir de amanhã.

Não!

A partir de agora: Meu silêncio é o grito!

 

Recompondo os fatos

 

Busco, através das palavras, exprimir minha inquietude, o meu senso de frustração e a minha revolta nos confrontos com uma sociedade que considero injusta, e uma cultura, antes tão amada e idolatrada, hoje estranha e oposta, sem nenhum encanto.

No dia 24 de julho 2003, terminamos o que seria o curso e seu estágio. O mês de agosto, na Itália, é mês de férias. O dinheiro que recebemos do curso serviria para a sobrevivência?  Não! Porque terminado o curso, o aluguel seria por nossa conta e não teríamos o suficiente para aluguel e sobrevivência. Deveríamos esperar setembro, e cada um tomou seu caminho. Os amigos do grupo, a maioria, nunca mais vi, nem tive notícias, outros, às vezes, por telefone, e outros ainda, que permaneceram perto, o que tornou possível algum breve encontro. (Fora o nosso grupo, se não me falha a memória, hoje somos bem mais de quinhentas pessoas). Eu e meus filhos escolhemos seguir por nossa conta e risco, inclusive para a obtenção da Cidadania Italiana, pois éramos ainda extra-comunitários e o custo através da Agência (Euros 150,00, cada) nos pesaria ainda mais.  Conseguimos ‘Permesso in Attesa di Cittadinanza’ no dia 11 de setembro e, já no dia 25 do mesmo mês, nos tornamos Cidadãos Italianos. Que diferença faria? Somos Brasileiros, Gaúchos, Serafinenses. Ter Cidadania Italiana não me faz ser nem sentir Cidadã Italiana.

Nossos amigos humanos percorreram conosco as dores e o medo na busca de um ponto de equilíbrio. Mas foram eles que encontraram casa a menos da metade do custo do aluguel oferecido pela Agência: de 830,00 por um apartamento de 30m2, pagaríamos 350,00 Euros por um apartamento de 104m2. E eles, não nós, compraram os móveis e os carregaram ao 5° andar da nossa nova casa. Nós, meus filhos e eu, apenas pintamos o apartamento enquanto as vítimas número dois colocavam tudo em ordem, em perfeita ordem, além da procura de emprego para meu filho. Porque mulheres, ou se aceita fazer faxina nas casas, ou se cuida dos idosos nos asilos. (Os asilos são outra grande dor, aceitação do sinal de retirada da sociedade, da família e da vida. O amor, mesmo sendo assim, sem ser paixão, ou amor homem/ mulher - sendo assim, ternura, família e, não deixando de ser amor, porque é, é mais, porque é a essência que nos torna grandes e bons, e compreensivos, e alegres, e felizes, e acima das pequenas coisas, assim, tão mortais. Existe uma espécie de contabilidade invisível nas famílias daqui? Um antigo dito popular diz: ‘o modo em que se dá vale mais do que se dá’. Se eu recebi amor e vida, é assim que penso retribuir, e não entendo nem aceito  substituir pai e mãe, objetos do meu primeiro amor, pelo que chamam ‘asilo’). 

Nos dez meses de ‘sobrevivência’, dias quase perdidos, deixei que se liberassem a espera e a esperança no impiedoso sentir da experiência, coisas vividas. Mesmo porque esperança, nesses pedaços de céu, assim, tão particular, é voz submissa. Porém, voz autêntica, clara. Alguém vai escutar o meu grito?

Todas as expressões: o canto, a palavra, o grito e a vida correm o risco de serem formas vãs, invadidas pelo vento de imagens vazias. Não sei se vou saber dar voz ao grito no espaço que sabe e entende cada batida de coração. Talvez todas as palavras já tenham sido ditas e então alguma coisa morre dentro e fico indecisa quanto a esse sentir com sabor tão diferente do que eu era. Sole é excesso de coração. Sombra é um canto morrendo esperança. Pecado que a palavra, dita ou escrita, não chega onde o segredo do coração segue a sua história, o seu erro e o destino da sua solidão.

Não gosto de ser dominada por forças que não são minhas, que arrastam os sentimentos, que aprisionam os ideais. Não desejo que tudo o que fiz, pensei e senti sobreviva apenas como lembrança. Penso no sonho, aquele que a vida reserva a cada um que deseja olhar e sentir, nos projetos trazidos conscientemente no coração e na alma quando o barco da vida mudou o caminho, nas poesias que não escrevi. Mas toda vez que tento entender o ponto crucial, o momento da mudança que deveria ser por si só, soberano, me perco. Porque toda vez existe uma mão, uma palavra ou um gesto que demonstra o egoísmo e o ter: ‘Aqui não é Brasil  e toda vez que falar com uma pessoa, faça o favor de manter distância. Vocês, Brasileiros, tem mania de se aproximar demais quando falam’. Palavras ditas me empurrando o mais distante possível. Primeiro gesto e palavras que pisotearam, não somente todos os futuros diálogos, mas também o sonho apenas iniciado.

Minha fantasia/utopia foi cancelada na sua específica substância e teve início o medo. Não me lembro de haver dado um sorriso nesses últimos meses. E cada palavra aqui escrita contém lagrimas. Porque o choro, desde que pisei em terra estranha, também faz parte. Como se meu amor pela nossa cultura e pelas nossas tradições tivessem sido feridas no mais profundo e representasse exatamente o contrário do que eu acreditava ser minha identidade. Não lembro quem escreveu, mas li em alguma parte: a gente descobre quem é quando sabe o que não é.

Quando penso sobre os momentos vividos, lembro dos tantos outros que vieram, em quais seriam agora os seus pensamentos sobre a nova experiência, o que escondem em seus corações diante das profundas mudanças na vida coletiva. Nem todos têm a ilusão de estar bem porque puderam comprar o famoso ‘celular’ ou ter conhecido uma ou duas das famosas cidades ricas de arte (antiga). Sei que muitos viveram experiências dolorosas de adaptação: convivência em grupo, alimentação diferente, a falta de estrutura no próprio caminho, a famosa insegurança, a adoção das diferenças sociais quando nós, pobres vênetos/brasileiros, estávamos habituados a usar a razão, a moral e a ética para responder aos desafios das nossas existências.

 

 

 
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