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A alma na pedra

A alma na pedra - Y

 



 

 

Memória torturada

 

Fizemos uma viagem incrivelmente estranha de dois mil quilômetros a mais: fomos para à Argentina, onde esperamos por onze horas o avião que nos levaria ao Antigo Continente. Somávamos ao todo vinte e duas (22) pessoas. E nosso primeiro débito na terra mãe foi na chegada: deveríamos pagar 22,00 Euros pelo ônibus que nos levaria, não onde estava previsto. Eu e meus filhos estávamos com endereço registrado para Fara Vicentina, mas nos separaram e mudaram quando chegamos. Minha filha mais duas amigas e eu ficamos em Arzignano, em um apartamento com mais ou menos 30m2 (um quarto com duas bicamas, um banheiro sem janela e uma cozinha com sala de estar conjugadas). Meu filho foi para Breganze e, por quinze dias, ficamos separados, nos vendo apenas nos períodos de aula na escola, até que, finalmente, o coração da mãe gritou e exigiu a família unida. Embora a vida parecesse correr em direção a um porto indefinido, tomei posse de um momento divino: o sentimento, o sorriso e o abraço. Tomei posse ou roubei, quando tudo parecia correr na direção de cancelamento do particular.

O medo de contaminar os filhos com as minhas inseguranças me obrigou a calar: não queria criar o perfil de um fantasma covarde e culpado. Hoje sei que minha culpa pode ser perdoada, mas não cancelada. O perdão, apesar da grande capacidade de curar as feridas, não cancela o erro nem a memória.  Existe um dito popular que diz: ‘ninguém gostaria de saber que a mão que embala o berço, treme’. 

Quantos fragmentos de dor caminharam na consciência da sombra durante a experiência com as frustrações e fragilidade?

Eu deveria me esconder no meu sofrimento e assim, dor dentro, conservar uma imagem aceitável de mim mesma? E o coração, que parecia uma asa em fuga, batendo desordenadamente, deveria fazer de conta que era taquicardia? Não! Seria um longo percurso a considerar e exigia ao mesmo tempo ternura, respeito e cumplicidade: Sole/Sombra, uma ligação que deveria ser reconstruída quando estivesse a sós comigo mesma. Se cada uma respeitasse a autonomia da outra, seria possível encontrar o espaço para a ternura.  O invólucro pode ser rompido, mas o recompor possui a força maior, pois vem de dentro e do alto. Mesmo a música mais harmoniosa e doce não pode existir sem a permissão do silêncio. E foi no silêncio que insinuei meu ingresso em uma nova constelação: encontrei os sobreviventes.  Explico: encontrei os sobreviventes humanos, as vítimas número dois de toda essa história.

Foi por acaso, olhando a vitrine de uma livraria no centro de Arzignano, que vi um livro que me foi emprestado, (Don Camillo), anos atrás, por Pe. Roberto Ciotola. Entrei e ‘A Divina Providência’ se manifesta quando menos se espera. O dono da livraria era Mario Bagatella que, com sua esposa Luigina Lovato Bagatella, esteve em Serafina Corrêa em 02 de julho 2003, com o Grupo de Teatro La Torre, de Chiampo.  Mario e ‘Santa’ Luigina, juntamente com mais amigos do grupo Amélia e Rolando Fongaro, foram a nossa Luz, o nosso porto e o nosso abrigo. Tanto fizeram que hoje evito contar a eles alguns fatos que sucedem. Porque Mario, olhos azuis, chora. E isso me lembra meu pai, Luigi Andréa Soccol: a mesma cor dos olhos, o mesmo silêncio disfarçando as lágrimas que teimam em correr pela face.

Meu coração tornou a pulsar com os ritmos do mundo: sonho, respiração, luz. Se tudo é infinito, interno e transparente, e se o amor que se doa, entre o céu e a terra, é sempre obra da luz, o que se recebe? Amigos. Não existem palavras que possam agradecer a Deus e a essas pessoas por fazerem parte de nossa vida. Amigos mais que amigos, amigos mais que irmãos. Amigos que colocaram o sol na ponta dos dedos para doar a nós.

Obrigada:

- Pelo alimento na nossa mesa, quando esse nos faltava;

- Por me levarem e buscarem, todos os dias, até a conceria (curtume) onde fiz estágio;

- Pela casa que procuraram e encontraram para nós;

- Pela viagem a Belluno para buscar minhas bagagens;

- Pelos móveis e utensílios domésticos, pelas horas de trabalho tentando fazer da nossa casa, um lar;

- Por terem encontrado trabalho para o meu filho no mês de agosto, quando todas as empresas estavam em férias;

- Pelo dentista. Não posso esquecer ‘Santa’ Luigina, mais preocupada que eu mesma, procurando um dentista, porque, por acaso, caiu a obturação de um dente no dia 18 de junho, e só conseguimos um que nos desse condições de pagamento em 27 de novembro (dois pagamentos: um de 110,00 Euros e outro de 150,00 Euros, mais os selos em cada comprovante de pagamento, 1,29 Euros, porque cada nota ou documento deve ter um selo que muda valor, sem o selo o  documento é inválido). A Carteira de Saúde e a taxa que diziam cobrar na famosa saúde gratuita na Itália provei em julho, quando fiz um curativo no dente e paguei a pequena taxa de 35,00 Euros;

- Por tudo, por tanto, obrigada... Não apenas em meu nome, mas em nome de tantos dos nossos (Brasileiros e Argentinos) que foram auxiliados da mesma maneira, com o mesmo amor e carinho.

Não posso esquecer, todavia, de agradecer a várias pessoas que nos auxiliaram:

Libera Rossi e Don Mario Zanon de Taibon - BL;

GianLuigi Secco, os Belumat de Belluno-BL;

Giorgio Roncolato de Arzignano-VI;

Don Canuto Toso, Riccardo e Luisa Masini, Trevisani nel Mondo de Treviso- TV;

Cláudio Meggiolaro da Escola de Trissino-VI;

Milosc Voutcinitch de Padova-PD e todo o Grupo de Teatro de Pernumia, que se apresentou em Serafina Corrêa no ano de 1995 (Carla Faccio, Fioretta Barnes, Mario Barbieratto e Renato Bottaro);

Ettore Beggiato, Consigliere e Cidadão Honorário de Serafina Corrêa desde 1995, de Rovolon - PD;

Egidio Pistore, Diretor do Departamento Emigraçao e Imigração da Regione Vêneto;

Beppino Lodolo de Udine - Região do Friuli;

Cristina Fantin e Roberto Parise, Marostica-VI;

Rina Cracco, minha vizinha de porta de Chiampo-VI;

Elena Chiarello da Assistenza Sociale de Arzignano-VI;

Renato Marcon do Ufficio Immigranti de Arzignano-VI;

Márcio e Nadiege Colombo- ensinando que as velas não são um peso e sim força maior para o barco;