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A alma na pedra

A alma na pedra - B

 



  

 

Meu Amigo de coração e alma, Milosc Voutcinitch, que sempre recebeu os prêmios por mim. Aqui, ‘Poesia Campagnolla’ em Piove di Sacco-Padova.

Existem fatos que parecem pesantes, mas nada pode impor à verdade um preço.

Por que o amor nos conduz a querer resolver enigmas ou compreendê-los? Bastava simplesmente dar um nome à impossibilidade, defini-la como irreversível, apesar de legítima e digna de respeito. Bastava continuar sendo simplesmente Sole. Mas de dentro, do coração da minha alma, emergiam objetos significantes, fotografias das cidades de origem de meus antepassados, a emoção de descobrir a função sacra do sonho, e reencontrar os caminhos da memória, através dos quais poderia escrever a minha própria versão.

Em agosto de 2002 teve início o que considero hoje o ideal do ego inclinado. Quando não se consegue um verdadeiro encontro com as próprias origens nem consigo mesmo, a identidade se dobra e ali permanece sem chegar a lugar algum. Eu desejava vir para a Itália, acreditava que aqui encontraria a origem da cultura, que poderia registrar coisas incríveis com os nonos, entre os diálogos e as raízes.

Um projeto realizado pela Regione Vêneto, através de uma Agência italiana, parecia o caminho. O aluguel seria no mínimo de Euros 150 a 300 (não explicaram que esse valor seria por pessoa e não pelo apartamento), mais as despesas de consumo de água, luz e gás. Diziam que com 150 Euros de alimentos, se viveria bem.  E por que não acreditar quando os donos do poder iam às nossas cidades, nas Prefeituras para falar com os Prefeitos, quando enviavam cartas firmadas pelos mesmos donos do poder,  oferecendo cursos, estágio e depois emprego?  Eu mesma recebi diversas correspondências, como Solange Maria Soccol e como Associazione Origine Italiana. As rádios do Talian liam, embevecidas, os Projetos de Rientro. Como e por que não acreditar?

Não sei o quanto fiz papel de idiota procurando documentos para os jovens da nossa cidade e das cidades vizinhas. Ofereci-me para ajudar e passei meses sem descanso, porque eram dezenas de telefonemas diariamente, até a meia-noite. E dos telefonemas passamos aos documentos, aos advogados. Incluídos Sole e seus filhos.

Despesas com advogados, documentos, certificados de nascimento, casamento e óbito (originais depois corrigidos), buscas: R$ 3.500,00. E viagens para entrevistas e preenchimento de currículos em Caxias do Sul... Perdi a conta. Quantas vezes foram preenchidas as fichas onde perguntavam o que desejávamos fazer? Perdi a conta (meu filho sempre preencheu que desejava fazer o Curso de Mecânica, que era uma das opções, no entanto, estranhamente, aqui fez curso de Operário Conciario (curtume), no grupo dos onze desse mesmo Curso. Minha filha, por ser menor de idade, faria o Curso como ‘ouvinte’, não receberia o valor de Euros 800 prometidos para o final do Curso... Mas o estágio ela fez: duas semanas trabalhando por oito horas diárias, carregando couro e colocando nas máquinas, gratuitamente). Quantas despesas mais? Cada documento deveria ser carimbado pelo Consulado a um custo X, cada documento deveria ser traduzido a um custo X. Eu, divorciada, deveria traduzir todo o processo de separação e divórcio. Poucos dias antes de virmos, pagamos três meses de INSS, como desempregados, para podermos obter aqui a Carteira de Saúde. Quanto gastei? Perdi a conta. E sem contar que a famosa Carteira de Saúde, quando me foi necessária, foi preciso pagar o ticket de 35,00 euros. Vendi todos os móveis da minha casa, gastei tudo o que tinha, porque além das despesas de documentação, teríamos de pagar a passagem: U$ 640,00 cada. Passagem esta que ficaríamos sabendo somente na hora de pagar, sem direito a retorno. Como sobremesa, U$ 500,00 por excesso de bagagem. Mas estávamos no barco e deveríamos içar velas. Nossos pobres reais brasileiros valiam na época quatro por um Euro e, com coração, cara e coragem, embarcamos levando uma miséria de 150,00 Euros para os dois primeiros meses, onde tudo seria gratuito: aluguel, escola, alimento. Era já o mês de maio de 2003, dez meses de investimentos no futuro que me transformaria em sombra.

 

 
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