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A alma na pedra

A alma na pedra

 

A DOR DA SOMBRA

Minha verdade sobre o retorno à Pátria Mãe

 

 

Chamam-me Sole, o que significa sol na língua italiana, mas estou aqui, olhando o filme do passado projetado no escuro de uma sala da minha mente, sem espectadores. Eu e minha dor: sou uma sombra. Sombra do que fui, sombra dos meus sonhos. Sombra porque estou completamente cercada por uma nuvem de falta de senso, o que me impede de ver a linha do limite atrás da qual deixei minhas pequenas grandes coisas.

Desde a infância sustentei o sonho da nossa geração, bisneta de imigrantes italianos oriundos da Região Vêneto. A etimologia da palavra origem (de origo, orior-surgir) indica a aproximação ao surgir de um astro: no oriente nasce a luz. Origo significa também sair da terra, andar pelos próprios pés, e é sinônimo de gênese que, como todos nós sabemos, é a história bíblica das origens. Então busquei, pesquisei... Porque é no sofrimento gerado pela distância da própria terra que nasce a necessidade de conhecer as origens e de retornar ao que forma a nossa identidade.

Voltei à terra de origem: Projeto ‘Rientro’ da Região Vêneto - Lei 02/2003. Comigo dezenas de jovens também descendentes, e meus filhos que hoje, por Lei Italiana, não podem levar também o meu sobrenome: primeira dor. É como ver a sequência de um filme sem encontrar espaço para dedicar ao espírito. O cotidiano na terra de origem cancelou o espaço dedicado ao ‘ser’ e tenta, de toda maneira, me envolver na identidade do ‘ter’. Desde os primeiros dias, o consumismo ligado ao ‘ter’ tentou colocar etiquetas até mesmo nos meus pensamentos. Pensava no Brasil, em recomeçar uma nova vida, mas esse recomeçar se transformou em reflexo de continuar na dificuldade de viver e numa completa ausência de relacionamento entre a origem e o que entendo ser vida. Vida aqui é sobrevivência. Se antes eu tinha o horizonte direcionado ao passado, hoje coloquei um muro e a cada minuto peço perdão aos meus filhos, que obrigatoriamente devem me sustentar, e ao meu bisavô Luigi Ângelo Soccol, porque certamente, se partiu de uma terra ingrata em direção a uma terra acolhedora, hospitaleira e produtiva, ele tinha razão. E sempre devemos ouvir os mais velhos: cosi te impari a star a casa tua.  Sem esquecer as palavras mil vezes repetidas por minha mãe, Amélia Tomasetto Marca Soccol: ti te si come San Tomaso, no te fermi fin che non te meti el naso. Não se preocupe mãe, aprendi. Porque bateram com a porta na minha cara e meu nariz (não lembro onde li que o nariz é símbolo do ego...) está quebrado.

Caminhando na estrada coletiva, cada ser humano assinala o percurso de sua própria história. E o que eu assinalei?  Da minha valise retiro retalhos de jornal, velhas fotografias, alguns objetos que se transformam em pequenas pedras semeadas na estrada da minha memória e, se alguém me olhasse nos olhos ainda leria um infalível autocontrole que se conquista domesticando dia a dia a dor, a angústia e a solidão dotadas de uma espécie  de eternidade. Não aceito apoiar-me nas gerações que me precederam e carregaram nos ombros o pesado fardo de sofrimentos desconhecidos somente para diminuir a minha culpa. Culpa. Porque a vida é sagrada e é necessário ir além da dor, penetrar nas palavras e subir aquela escada colocada por engano na minha agenda. No último degrau, quem sabe... Porque a escada não é obrigatória, nem limitada e nem única e pode ser a continuação da existência. A Itália não é o centro do mundo e nem os italianos são os donos de todo o conhecimento ou da verdade. Muito menos da sabedoria. A escada e o muro ossificados dentro da sombra que sou me conduzem às palavras, mesmo que os italianos digam que uma mulher com mais de quarenta anos de idade é praticamente inútil e incapaz, ainda mais sendo nascida no Brasil, considerada então analfabeta ou, surpreendentemente, um peso para a Pátria Mãe.

Rendo formalmente justiça a mim mesma: advirto que as forças que dizem me pesar nos ombros não me impedem de alçar um novo vôo. O pesado fardo não foi imposto por mim, mas por mentiras e enganos aqui projetados e repassados a nós, crentes e confiantes na igualdade que deveria existir entre os povos, ainda mais sendo provenientes da mesma região, da mesma terra, da mesma Pátria Mãe. A minha existência inútil onde deveria ser a minha casa, pode ser dissipada projetando um futuro iluminado pela luz da memória, e porque não dizer, da minha verdade.

Quando nos ensinam a conjugação dos verbos, na escola, aprendemos de modo ilustrado e enriquecido, em dimensão humana: eu, tu, ele, nós. O sujeito no ambiente que o circunda no ‘presente’, enriquecido pelo ‘passado’, projetando o ‘futuro’ e sonhando, graças ao ‘condicional’. Talvez aqui a gramática seja diferente: existe o ‘eu’ no ‘presente’. Ou ‘nós’ os italianos, patrões da arte, da música, da história, da melhor cozinha mundial... Mas o ‘nós’, imigrantes do final do século 19 e a história da imigração, não são conhecidos. Não consigo entender como informações vindas de um passado tão próximo, sobre milhões de pessoas que partiram em desespero por fome, por miséria, ‘pelagra’ e por excesso de impostos, são desconhecidas para a maioria das pessoas... Como podem não saber? Não sabem que até 1935 a maior fonte de renda na Itália era o dinheiro que os emigrados mandavam para os que haviam permanecido na ‘Pátria Mãe’? Ou sabem e fingem não saber?

Não posso enumerar as dores que me transformaram em sombra. Mesmo com mais de quarenta anos sinto e sei que meu espírito é pleno, e com o espírito pleno não existe tempo para pausas. Pausar é perder o momento, o impulso, a idéia, o conteúdo e o objetivo. É desperdiçar as palavras que fluem com o encanto de mágico mistério, que podem transformar o insignificante em significado, o pequeno em grande. Porque aqui sou insignificante e pequena, sou sombra. Mas pode ser significado para os que tiverem o mesmo impulso de querer voltar porque assim podem saber que não é para todos, a terra de origem é Pátria e Mãe. Pode ser grande porque o despertar traz a verdade e coloca o dedo na ferida. Eu sou a minha alma e não a vendo. Doa a quem doer, a verdade continuará e sempre será verdade. Machiavel é um embuste.

 
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